Medicamentos agonistas do recetor da GLP-1 no tratamento da Diabetes e Obesidade (Liraglutido e Semaglutido)
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Nos últimos anos, medicamentos como o liraglutido e o semaglutido têm revolucionado a forma como lidamos com a obesidade, a Diabetes e o controlo do apetite.
Estes dois medicamentos pertencem à classe dos agonistas do recetor de GLP-1 (glucagon-like peptide-1). O GLP-1 é uma hormona produzida no intestino após as refeições que ajuda a controlar os níveis de açúcar no sangue e o apetite. Atua no pâncreas, cérebro e estômago, estimulando a libertação de insulina, inibindo o glucagon e reduzindo a fome.
Os medicamentos agonistas do recetor de GLP-1, como o liraglutido e semaglutido, são medicamentos que imitam a ação desta hormona, ajudando assim a reduzir o açúcar no sangue, controlar o apetite e promover a perda de peso. (1,2)
O liraglutido é comercializado sob os nomes Victoza e Saxenda, já o semaglutido, encontra-se disponível como Ozempic, Wegovy e Rybelsus.
Mas quais são as diferenças entre eles? E o que diz a ciência sobre os seus efeitos a longo prazo?
Liraglutido
O liraglutido foi o primeiro agonista de GLP-1 aprovado para diabetes tipo 2 e obesidade. Com administração diária por via subcutânea, demonstrou eficácia em: promover perda de peso moderada; diminuir o risco cardiovascular em pessoas com diabetes tipo 2; e reduzir glicemia e hemoglobina glicada (HbA1c). A hemoglobina glicada é um marcador que reflete a média dos níveis de açúcar no sangue nos últimos 3 meses, sendo essencial para avaliar o controlo da diabetes. (3-5)
Num estudo com mais de 9.000 participantes, o liraglutido reduziu em 13% os eventos cardiovasculares major e em 22% a mortalidade cardiovascular. (5)
Além disso, as revisões recentes apontam melhorias no controlo do apetite, perfil lipídico e pressão arterial. (3,4)
Semaglutido
O semaglutido representa uma evolução do liraglutido, apresentando uma meia-vida significativamente mais longa (cerca de 7 dias), o que permite administração semanal e até uma formulação oral, facilitando a adesão ao tratamento e promovendo maior estabilidade dos níveis de glicemia. (6)
Em diversos estudos clínicos, verificou-se que o uso de semaglutido em pessoas com obesidade levou a uma redução média de cerca de 15% do peso corporal após pouco mais de um ano de tratamento, enquanto os grupos de controlo apresentaram perdas muito inferiores. (7)
Outras investigações demonstraram que o semaglutido é capaz de reduzir a hemoglobina glicada (HbA1c) em até 1,8% e o peso corporal entre 4 a 6 kg, apresentando resultados superiores aos observados com o liraglutido. é um marcador que reflete a média dos níveis de açúcar no sangue nos últimos três meses, sendo essencial para avaliar o controlo da diabetes. (8)
Além disso, estudos de longo prazo indicam que o tratamento com semaglutido pode estar associado a uma redução de aproximadamente 25% no risco de eventos cardiovasculares major, como enfarte do miocárdio e acidente vascular cerebral, reforçando o seu potencial benefício metabólico e cardioprotetor. (9)
Outros fármacos utilizados
Além do liraglutido e do semaglutido, existem outros agonistas do recetor de GLP-1 com mecanismos semelhantes, como o exenatido, o lixisenatido e o dulaglutido. Todos atuam imitando a ação do GLP-1 natural, promovendo a libertação de insulina e a redução do apetite, mas diferem na duração do efeito e na frequência de administração. Enquanto o liraglutido requer injeções diárias e o semaglutido permite doses semanais, fármacos como o dulaglutido e o exenatido de libertação prolongada também oferecem esquemas semanais, favorecendo a adesão ao tratamento. Embora partilhem benefícios metabólicos semelhantes, o semaglutido continua a destacar-se pela maior eficácia na perda de peso e no controlo glicémico.
Benefícios cardiovasculares e metabólicos
Tanto o liraglutido quanto o semaglutido apresentam efeitos cardioprotetores comprovados, diminuindo inflamação, stress oxidativo e risco de eventos cardíacos. Ambos ajudam a: reduzir pressão arterial sistólica; melhorar o perfil lipídico e a proteger a função renal em pacientes com diabetes tipo II. (5,9,10)
Cuidados e contraindicações
Apesar dos seus benefícios clínicos, é importante considerar potenciais efeitos adversos e precauções de uso. Efeitos adversos mais comuns: náuseas, vómitos e desconforto gastrointestinal leve, geralmente temporários.
Tanto o liraglutido quanto o semaglutido podem causar efeitos gastrointestinais transitórios (náuseas, obstipação, sensação de enfartamento) e são contraindicados em pessoas com histórico de pancreatite; carcinoma medular da tiroide; e síndromes genéticas, como neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2).
Conclusão
O liraglutido e o semaglutido representam avanços na gestão da diabetes e obesidade. De forma a potenciar os benefícios do tratamento com estes medicamentos, é fundamental adotar um estilo de vida equilibrado.
Assim, deve-se privilegiar o consumo de alimentos ricos em proteínas magras, leguminosas e fibras, optando por refeições pequenas e leves ao longo do dia. Além disso, é essencial manter uma hidratação adequada, limitando a imgestão de bebidas alcoólicas e alimentos ultraprocessados. A prática regular de atividade física é crucial e contribui para a preservação da massa magra e para melhores resultados metabólicos.
Concluindo, quando se conjuga uma alimentação equilibrada, exercício físico e acompanhamento profissional, estes medicamentos são ferramentas poderosas para melhorar a saúde metabólica e a qualidade de vida das pessoas com estas patologias.
Bibliografia:
- Nauck MA, Meier JJ. Incretin hormones: their role in health and disease. Diabetes Obes Metab. 2018;20(Suppl 1):5–21.
- Drucker DJ. Mechanisms of action and therapeutic application of glucagon-like peptide-1. Cell Metab. 2018;27(4):740–756.
- Jacobsen LV. Liraglutide in Type 2 Diabetes Mellitus: Clinical Evidence and Mechanisms of Action. Curr Diabetes Rev. 2016;12(3):211–223. PMID: 26597252.
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- Marso SP, Daniels GH, Brown-Frandsen K, et al. Liraglutide and Cardiovascular Outcomes in Type 2 Diabetes (LEADER Trial). N Engl J Med. 2016;375(4):311–322.
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- Pratley RE, Aroda VR, Lingvay I, et al. Semaglutide versus Dulaglutide Once Weekly in Patients with Type 2 Diabetes (SUSTAIN 7). Lancet Diabetes Endocrinol. 2018;6(4):275–286.
- Marso SP, Bain SC, Consoli A, et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Patients with Type 2 Diabetes (SUSTAIN-6). N Engl J Med. 2016;375(19):1834–1844.
- Kristensen SL, Rørth R, Jhund PS, et al. Cardiovascular, mortality, and kidney outcomes with GLP-1 receptor agonists in type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis. BMJ. 2019;366:l4573.
Autor: Sofia Silva 5784N